sábado, 21 de janeiro de 2012

O velho Pescador


A nossa casa ficava defronte da entrada para o Hospital John Hopkins, em Baltimore. Ocupávamos o piso inferior da habitação e alugávamos os quartos do piso superior a pacientes externos do hospital.

Numa tarde de verão, quando eu preparava o jantar, alguém bateu à porta. Quando fui atender, encarei com um homem idoso de aspeto medonho. Era pouco mais alto do que o meu pequeno de oito anos e tinha o corpo corcovado. Mas o que apavorava mesmo era a sua cara – a pele num mesclado de inchaço, vermelhidão e carne viva.

Não obstante, a sua voz era agradável quando se dirigiu a mim: “Boa tarde. Vinha saber se tem um quarto disponível, somente para esta noite. Vim da costa oriental hoje cedo para o tratamento e agora só tenho de novo camioneta de madrugada.”

Contou-me que não estava a conseguir alugar quartos, parecia que ninguém nas redondezas tinha quartos vagos. “Suponho que seja por causa do meu rosto… Sei que tem um aspeto horrível, mas o meu médico diz que com mais alguns tratamentos…”

Por momentos hesitei. Mas as palavras que proferiu de seguida acabaram por me convencer: “Poderia dormir nesta cadeira de baloiço, aqui no alpendre. A minha camioneta parte logo cedinho”.

Respondi-lhe que lhe arranjaríamos uma cama e que descansasse entretanto no alpendre. Entrei em casa e acabei de fazer o jantar. Quando estava tudo preparado, convidei o velhinho a juntar-se a nós. “Não, muito obrigado. Tenho o suficiente”. E agarrou num saco de papel castanho.

Quando terminei de arrumar a cozinha, fui até ao alpendre para falar com ele alguns minutos. Não foi preciso muito para perceber que o ancião tinha um enorme coração encaixado no seu corpo mirrado. Contou-me que continuava a pescar para sustentar a sua filha, os seus cinco netos e o marido da filha, que ficara paraplégico devido a uma lesão grave na coluna. Não o contou em tom de queixume; na realidade, todas as suas palavras eram intervaladas com graças a Deus pelas bênçãos recebidas. Estava grato por a sua doença, que aparentemente era uma forma de cancro da pele, não lhe provocar dores. Estava grato por Deus lhe dar forças para continuar a trabalhar.

Na altura de ir dormir, colocámos uma cama de campo para ele no quarto das crianças.

Quando me levantei, na madrugada seguinte, a sua roupa da cama estava ordenadamente dobrada e o pequeno homem estava já aguardando, no alpendre. Não aceitou o pequeno-almoço que lhe quis oferecer. Um pouco antes de sair para apanhar a sua camioneta, hesitantemente, como se pedisse um grande favor, perguntou: “Posso voltar da próxima vez que tiver tratamento? Não vos vou incomodar. Posso perfeitamente dormir numa cadeira.” Fez um pequeno silêncio e depois acrescentou: “As suas crianças fizeram-me sentir como se estivesse em casa. Os adultos ficam chocados com a minha cara, mas as crianças parecem não se importar.”

Disse-lhe que seria bem-vindo de todas as vezes que quissesse vir.

Na sua viagem seguinte, chegou um pouco depois das sete horas da manhã. Trazia, como presente, um belo peixe e um punhado das maiores ostras que alguma vez tinha visto na minha vida. Disse-me que as tinha apanhado nessa madrugada para que estivessem frescas e bonitas. Sabia que a sua camioneta partira às quatro da manhã, por isso questionei-me acerca das horas a que se teria levantado para que nos pudesse fazer aquela surpresa.

De todas as vezes que veio ficar connosco, nos anos que se seguiram, não houve uma única vez que não nos trouxesse peixe, ostras ou vegetais da sua horta. Algumas vezes também, recebemos entregas especiais, através de encomendas dos correios. Peixe e ostras embaladas em caixas de espinafres frescos ou folhas de couve, cada folha cuidadosamente lavada. Eu sabia que ele precisava de andar cerca de três milhas para chegar à estação dos correios e sabia também que tinha pouco dinheiro, por isso, para mim, as suas ofertas eram duplamente preciosas.

Quando recebia essas prendas, lembrava-me sempre dos comentários que a nossa vizinha do lado fizera assim que ele virara costas da primeira vez que ficara em nossa casa: “Teve coragem de receber esse homenzinho horroroso a noite passada? Eu mandei-o embora. Aceitando esse tipo de gente, pode perder hóspedes...!”

E talvez tenhamos perdido um ou dois. Mas se ao menos eles o tivessem conhecido, talvez as suas próprias doenças se tivessem tornado mais fáceis de suportar. Eu sei que a nossa família estará para sempre grata por o ter conhecido. Através dele aprendemos a aceitar as más coisas da vida sem queixas e a acolher as boas coisas com gratidão.

Recentemente, visitei uma amiga. Enquanto me mostrava as suas plantas, deparei-me com o mais belo espécime de todas, um crisântemo dourado, prestes a rebentar em flores. Para minha grande admiração, estava colocado num balde velho e enferrujado. Pensei para mim própria: “Se esta magnífica planta fosse minha, iria decerto coloca-la no melhor vaso que tivesse.”

A resposta da minha amiga fez-me imediatamente mudar de ideias. “Estou sem vasos de momento. Mas como me apercebi que esta menina iria ser tão linda, pensei que não se iria importar se a colocasse neste balde velho. É só por pouco tempo, enquanto não a transfiro para o jardim”.

Ela deve-se ter perguntado porque me ri com tanto gosto, mas eu estava a imaginar uma cena no paraíso. “Aqui está um ser especial e único”, Deus deve ter dito quando primeiro se deparou com a alma daquele doce e velho pescador e a quis colocar num corpo. “Decerto não se deve importar de começar neste pequeno e corcovado corpo”.

Tudo isto se passou há muito tempo atrás. Porque agora, no jardim de Deus, que imponente essa alma adorável deve estar!


Traduzido e adaptado de texto da autoria de

Mary Bartels Bray


2 comentários:

  1. Maravilhoso o seu testemunho, fiquei muito emocionada!
    Estou espantada que ninguém comentou nada...meu Deus, isso comove até uma pedra, quanto mais um ser humano!
    Obrigada, muito obrigada por ter me dado o prazer de ler tamanha grandeza de gesto...parabéns!!

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    1. Obrigada, Lúcia! O texto não é de minha autoria, somente traduzi. Mas concordo consigo, é muito comovente! Um abraço

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