sábado, 24 de dezembro de 2011

Não gosto de você, Papai Noel!






Não gosto de você, Papai Noel!
Também não gosto desse seu papel
de vender ilusões à burguesia.
Se os garotos humildes da cidade
soubessem do seu ódio à humildade,
jogavam pedras nessa fantasia!


Você talvez nem se recorde mais.
Cresci depressa e me tornei rapaz,
sem esquecer no entanto o que passou.
Fiz-lhe bilhete pedindo um presente,
a noite inteira eu esperei contente,
chegou o sol e você não chegou.


Dias depois, meu pobre pai cansado
trouxe um trenzinho velho, empoeirado,
que me entregou com certa hesitação.
Fechou os olhos e balbuciou:
"É pra você... Papai Noel mandou..."
E se esquivou contendo a emoção.


Alegre e inocente nesse caso,
pensei que meu bilhete com atraso
chegara às suas mãos no fim do mês.
Limpei o trem, dei corda, ele partiu,
deu muitas voltas, meu pai sorriu
e me abraçou pela última vez.


O resto só eu pude compreender
quando cresci e comecei a ver
todas as coisas com realidade.
Meu pai chegou um dia e disse, a medo:
"Onde é que está aquele seu brinquedo?
Eu vou trocar por outro na cidade".


Dei-lhe o trenzinho quase a soluçar,
e como quem não quer abandonar
um mimo que lhe deu quem lhe quer bem,
disse medroso: "Eu só queria ele...
Não quero outro brinquedo, quero aquele
E por favor, não vá levar meu trem".


Meu pai calou-se e pelo rosto veio
descendo um pranto que eu ainda creio,
tão puro e santo, só Jesus chorou.
Bateu a porta com muito ruído,
mamãe gritou, ele não deu ouvidos,
saiu correndo e nunca mais voltou.


Você, Papai Noel, me transformou
num homem que a infância arruinou,
Sem pai e sem brinquedos. Afinal,
dos seus presentes, não há um que sobre
para a riqueza do menino pobre
que sonha o ano inteiro com o Natal!


Meu pobre pai doente, mal vestido,
pra não me ver assim desiludido,
comprou por qualquer preço uma ilusão:
num gesto nobre, humano, decisivo,
foi longe pra trazer-me um lenitivo,
roubando o trem do filho do patrão.


Pensei que viajara. No entanto
depois de grande, minha mãe, em pranto,
contou que fora preso. E como réu,
ninguém a absolvê-lo se atrevia.
Foi definhando, até que Deus um dia
entrou na cela e o libertou pro céu!


"Texto de Aldemar Paiva"






sábado, 17 de dezembro de 2011

As cinco maiores causas de arrependimento na hora da morte‏

Bronnie Ware é uma australiana que em determinada época da sua vida teve oportunidade de acompanhar doentes terminais, prestando-lhes cuidados paliativos. Terá assistido de perto ao deflagrar de emoções como revolta, raiva, medo, negação, remorsos, tristeza, depressão, culminando eventualmente em aceitação. Compartilhou momentos únicos e especiais, tendo sido ouvinte de relatos de vida, desabafos e confidências por parte desses doentes protagonizando os seus últimos dias de vida. Cada um deles num intervalo de tempo entre três a doze semanas. 

Desse período que considera enriquecedor para a sua própria aprendizagem de vida, Bronnie guardará decerto como preciosidade a perceção que o ser humano pode com facilidade esgotar a existência sem atingir a realização a que a sua alma aspira. Perceção essa que muitas pessoas só integram tarde de mais na vida, numa altura em que já nada podem fazer.

Os doentes terminais que acompanhou manifestaram, cada um a seu modo, arrependimento por não terem feito certas coisas na vida. Algumas dessas coisas eram comuns a todos eles. Bronnie registou as cinco mais cotadas causas de arrependimento, que indico de seguida. Ofereço os meus comentários a cada uma delas e algumas questões para reflexão.


1. Eu gostaria de ter tido a coragem de viver uma vida verdadeira para mim, e não a vida que os outros esperavam de mim

Quantas vezes não cedemos à vontade dos outros, contra a nossa própria vontade? Abafamos os nossos princípios e os nossos sonhos para agradar a outras pessoas. Corremos o risco de passar por cima dos nossos valores, esquecendo-nos que ao fazê-lo, estamos a destruir a nossa própria identidade. Por mais importante que alguém possa ser na nossa vida, ninguém deverá ser mais importante para nós do que nós próprios. É importante respeitar, diria mesmo considerar como sagrada, a nossa identidade. É connosco que garantidamente viveremos toda a nossa existência, é com as nossas próprias escolhas que nos defrontaremos no final da vida.

  • Quais são os meus valores?
  • Vivo de acordo com os meus valores ou limito-me a fazer o que os outros querem que eu faça?
  • Até que ponto me estarei a adequar a um sistema, ao invés de me mostrar tal qual como sou? 

2. Eu gostaria de não ter trabalhado tanto

Independentemente da carreira profissional ser muito importante, fornecendo-nos a nossa fonte de rendimento e sendo por consequência fator de sobrevivência, segurança e conforto, muitas vezes focalizamo-nos demasiado no trabalho e passamos pela vida sem dar importância ao essencial. Os nossos entes queridos, os amigos, os nossos sonhos são colocados de lado enquanto nos centralizamos em produzir dividendos. Trabalhamos mais e mais, a maioria das vezes em profissões que não nos agradam nem realizam.

  • O que estou a perder de importante, enquanto focalizo o meu tempo na carreira?
  • O meu trabalho realiza-me ou pelo contrário serve unicamente para me garantir dinheiro ao fim do mês?
  • De que modo poderei simplificar o meu estilo de vida, para que diminuam os meus encargos financeiros? É possível viver dignamente com menos rendimento?

3. Eu gostaria de ter tido a coragem de expressar os meus sentimentos

Esconder os nossos sentimentos para obter uma aparente tranquilidade com os outros, acaba por ser a médio prazo uma armadilha contra nós próprios. As emoções são para ser vividas, na medida em que funcionam como indicadores daquilo que vai bem ou mal na nossa vida. Emoções negativas reprimidas corroem a nossa vida e são fonte de somatização de doenças. A autenticidade, por outro lado, é saudável. É preciso ter a coragem de virar a mesa sempre que for caso disso. Se alguma coisa não está bem, há sempre a possibilidade de negociar soluções satisfatórias para todas as partes. Se não nos dão a hipótese de negociação, devemos questionar o relacionamento em si.

  • Expresso os meus sentimentos ou, pelo contrário, reprimo as minhas emoções?
  • O que me impede de expressar os meus sentimentos?
  • O que perco se expressar os meus sentimentos? E o que ganho?


4. Eu gostaria de ter mantido contato com meus amigos

A amizade é o relacionamento interpessoal mais valioso que podemos algum dia encontrar. Mas, muitas vezes, é sacrificada na medida em que damos prioridade a outras coisas. Carreira profissional, estatuto social, imagem, deveres familiares, afazeres domésticos consomem todo o nosso tempo. As amizades vão-se diluindo, por não sabermos atribuir-lhes a importância devida. E é possível que cheguemos ao final do nosso percurso sem ter nenhum amigo por perto. É preciso parar enquanto é tempo, refletir e tomar as medidas necessárias para que isso não venha um dia a acontecer.

  • Tenho amigos de longa data?
  • Em que medida as minhas prioridades na gestão do tempo estão bem definidas?
  • Estou a fazer tudo o que me é possível para alimentar a amizade?

5. Eu gostaria de me ter permitido ser mais feliz

É surpreendente que todos nós desejemos acima de tudo ser felizes e que, afinal, a maioria de nós não o venha nunca a conseguir. Como é que isto acontece? Talvez seja porque nos deixamos prender a preconceitos, protocolos sociais e padrões culturais. Socialmente, muitas pessoas são contidas, outras são mesmo falsas. A espontaneidade é entendida como prejudicial, na medida em que se pode estar a fugir às regras estabelecidas. O fingimento e a adulação das pessoas certas são um atalho fácil para conseguir a aprovação dos outros. Por outro lado, existe confusão quanto ao ter, possuir. Ilusoriamente é-nos inculcado que ter dinheiro e estatuto é sinónimo de felicidade. São-nos vendidas as caras sorridentes dos "famosos" nas revistas mas a maior parte das vezes e se olharmos com olhos de ver, descobrimos sorrisos forçados. Quanta tristeza lá no fundo!

Para sermos felizes talvez seja suficiente estarmos de bem com a vida e com aqueles que nos rodeiam. Simplicidade, humildade, autenticidade e genuinidade andam decerto de mãos dadas com a felicidade. É preciso que aprendamos a apreciar as coisas simples. As melhores coisas da vida não se pagam. Muitas vezes não as desfrutamos por estarmos muito ocupados a correr atrás de outras coisas. A felicidade é, antes de mais, uma escolha.

  • Quais são os meus sonhos? Empenho-me em torná-los realidade ou limito-me a realizar os sonhos dos outros?
  • O que tenho de mudar para poder viver segundo os meus sonhos?
  • O que posso fazer para adquirir paz e harmonia interior?

Não se esqueça nunca do principal de tudo, o AMOR. Nos momentos finais não importa quanto dinheiro tenha adquirido, o que importa é quanto amor tenha gerado. É pelo amor que nos devemos mover sempre. Por isso, na procura e entrega desse amor, não tenha medo de correr riscos e de lutar contra as regras estabelecidas ou opiniões alheias, se for caso disso.

A vida é só uma breve passagem.  Permita-se rir quando tiver vontade de rir, permita-se fazer aquilo que lhe dá mais prazer, permita-se seguir os seus sonhos.  Cuide bem de si e dos outros. Esforce-se para que nos últimos dias da sua vida possa vir a considerar que a sua vida foi bem vivida e valeu a pena.


Original inspirado no seguinte texto de Bronnie Ware: http://www.inspirationandchai.com/Regrets-of-the-Dying.html

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sábado, 10 de dezembro de 2011

Palace of Dreams

De Medwyn Goodall, do Album Where Angels Tread. Palace of Dreams é uma música calma e inspiradora, aqui "ilustrada" por um excelente video.