domingo, 27 de novembro de 2011

Acerca da verdadeira amizade

Existe nos dias de hoje alguma confusão acerca do significado de amizade. Muitas vezes, mistura-se o conceito com simples conhecimentos e familiaridades. Por uma qualquer circunstância encontramos alguém com quem precisamos manter um contacto mais ou menos prolongado, existe algum interesse recíproco entre ambos, talvez mesmo alguma cumplicidade e acabamos por confundir esse relacionamento com amizade.

Para ajudar a esclarecer o que se entende por amizade, podemos começar por identificar situações em que esta estará necessariamente ausente.

  • Não existe sinceridade, honestidade e/ou lealdade no relacionamento;
  • Sentimos, mesmo sem saber explicar as razões, que não devemos revelar facetas da nossa própria essência;
  • Somos impelidos a fingir ser quem não somos porque as nossas diferenças não são aceites; 
  • Somos solicitados a moldar-nos a um padrão supostamente normalizado;
  • Temos receio de ser mal interpretados e damos por nós a apresentar demasiadas explicações;
  • Existem desconfianças entre as partes;
  • Existe algum tipo de bajulação;
  • Somos procurados unicamente nos momentos em que precisam de nós e evitam-nos nos momentos que lhes são favoráveis;
  • Existe uma reação de indiferença quando atravessamos por maus momentos;
  • Somos confrontados com exigências intermináveis;
  • Somos procurados por aquilo que temos e não por aquilo que somos.

Curiosamente, Arthur Schnitzler escreveu um dia que “o ódio liga mais os indivíduos do que a amizade”. Pretendia ele dizer com essa afirmação que é mais fácil ser estabelecido um laço entre duas pessoas através do ódio, inveja e desejo de vingança do que através do amor e da amizade. E, de facto, sabemos que é bastante difícil nos dias de hoje encontrar e conseguir manter uma verdadeira amizade.

Para a amizade, é fundamental a reciprocidade de sentimentos mas não é necessário gostar-se das mesmas coisas. Eu posso não me interessar pelos mesmos temas dos meus amigos, contudo apreciar desfrutar momentos com eles, unicamente pela sua companhia e amizade.

Amigo é aquela pessoa que está do nosso lado, nos bons e maus momentos; a quem se pode pedir ajuda em qualquer situação e hora do dia. Amizade é construída com amor incondicional, sinceridade, confiança, lealdade e altruísmo. Podemos, sem margem para receios, confiar os nossos segredos aos nossos amigos e os seus conselhos ajudam-nos a tomar as melhores decisões. Somos encorajados e motivados pelas suas palavras. Somos aceites da forma que somos e apreciados pela nossa unicidade. Aristóteles foi talvez quem disse melhor através da seguinte frase: “O que é um amigo? Uma única alma habitando dois corpos”.

Por outro lado, não basta querer ter amigos para os ter. A amizade é uma questão do coração e não do cérebro. Ou existe ou não existe. Nesse contexto, não pode haver fórmulas para criar um amigo. Contudo, podemos sempre ter em conta algumas considerações para fomentar um bom relacionamento e, quem sabe, uma futura amizade:

  • Procurar relacionar-nos com pessoas que despertem em nós a vontade de sermos a melhor versão de nós próprios. Da mesma forma, evitar aqueles que se lamentam por tudo e por nada; os que somente criticam e não apresentam soluções; os que somam más ações. 
  • Rodear-nos daqueles que possuem qualidades que pretendemos desenvolver em nós próprios. 
  • Procurar a companhia de pessoas cuja presença nos coloca um brilho nos olhos e de bem com a vida. Valorizar aqueles que possuem atributos como o bom humor, espírito positivo e que caminhem na mesma direção.
Para finalizar, constata-se que, por vezes, se perde um verdadeiro amigo por questões insignificantes. Se isso aconteceu algum dia na sua vida, saiba que nunca é tarde de mais para colocar o orgulho de lado e tentar uma reconciliação. Afinal de contas, sendo a amizade uma das mais valiosas relações interpessoais que podemos ter na vida, quando a encontramos temos o dever de a preservar.


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sábado, 19 de novembro de 2011

Como instalar Amor no computador humano

Imagine-se sendo um computador e que o amor (sentimento) é um programa de informática. O que faria se pretendesse instalar amor na sua vida? Poderia talvez começar por telefonar para o suporte técnico do fornecedor do software. Partindo desse pressuposto, a conversação poderia desenrolar-se mais ou menos da seguinte forma:


Suporte técnico: Bom dia, em que posso ser útil?

Cliente: Depois de muito pensar, decidi instalar Amor na minha vida. Será que me pode ajudar?

Suporte Técnico: Com certeza. Podemos então começar?

Cliente: Bem, não sou muito experiente nestas técnicas mas penso que sim. O que devo fazer primeiro?

Suporte Técnico: O primeiro passo é abrir o Coração. Já encontrou o seu Coração?

Cliente: Sim, encontrei, mas estão a correr outros programas neste momento. Não faz mal instalar o novo programa enquanto os outros estão a correr?

Suporte Técnico: Quais são esses programas?

Cliente: Deixe-me ver… Tenho Magoas-Passado.exe, Baixa-Autoestima.exe… Rancor.exe e Ressentimento.exe a correr neste momento..

Suporte Técnico: Não tem problema. Amor vai gradualmente apagar o Magoas-Passado.exe do seu sistema operacional. Ele pode ficar na memória permanente mas não vai mais prejudicar outros programas. Amor irá eventualmente substituir Baixa-Autoestima. exe com um módulo próprio chamado Alta-Autoestima. Porém, será necessário que desative completamente Rancor.exe e Ressentimento.exe. Estes programas impedem o Amor de ser instalado corretamente. Será que os pode apagar neste momento?

Cliente: Eu não sei como apagá-los. Pode ajudar-me?

Suporte Técnico: Com todo o prazer. Vá ao seu botão “Iniciar” e ative Perdão.exe. Faça isso quantas vezes forem necessárias para que Rancor.exe e Ressentimento.exe sejam completamente apagados.

Cliente: Pronto, está feito. Amor começou a instalar-se automaticamente. Isto é normal?

Suporte Técnico: Sim. Deverá aparecer uma mensagem a dizer que o programa se instalou definitivamente no seu Coração. Já apareceu?

Cliente: Sim, agora mesmo. Significa que o novo programa está completamente instalado?

Suporte Técnico: Sim, mas lembre-se que você tem unicamente o programa base. Precisa começar a conectar-se com outros Corações para que obtenha upgrades.

Cliente: Mas apareceu agora mesmo uma mensagem de erro. Diz “Erro – Este programa não corre em componentes internos”.O que quer isto dizer?

Suporte Técnico: Não se preocupe, é um problema comum. Em linguagem corrente significa que tem de Amar a sua própria máquina antes de poder Amar outras.

Cliente: Então e agora, o que faço?

Suporte Técnico: Consegue encontrar uma pasta que diz Autoaceitação?

Cliente: Sim, está aqui.

Suporte Técnico: Clique nos arquivos que lhe vou indicar e que são Autoperdão, Valorização-Pessoal e Consciencia-Limitações.

Cliente: Estou a conseguir. Ena! Meu Coração está a receber novos arquivos. Sorriso.doc, Entusiamo.doc, Paz.doc e Contentamento.doc estão a ser copiados.

Suporte Técnico: Isso quer dizer que Amor está corretamente instalado e ativo. Em princípio não precisará mais da minha ajuda. Só uma coisa antes de desligarmos...

Cliente: Sim?

Suporte Técnico: Amor é um programa gratuito. Assegure-se que o oferece a todas as pessoas que encontrar. Assim, eles irão compartilhar com outras pessoas e, em troca, acabará por receber novos upgrades.

Cliente: Com certeza. Muito obrigado pela sua ajuda.



Autor: Desconhecido
Adaptado de texto de livre circulação na internet.

sábado, 12 de novembro de 2011

Cultivar o amor


Quando se fala em amor, é usual associar-se a palavra ao sentimento romântico entre um par. Contudo, há muitas formas de amor e neste artigo em especial vamos explorar formas de cultivar o amor interpessoal, no seu conceito mais altruísta. O amor pelo nosso semelhante, sem esperar receber nada em troca.

Sendo o amor essencial para a nossa vida, como seres humanos, todos nós o procuramos de uma forma consciente ou mesmo inconsciente. Na verdade, ansiamos reconhecer esse sentimento em nós próprios e nos outros. Contudo, nem sempre é fácil manter o amor vivo, sobretudo na época atual em que o egoísmo impera. Fomos ensinados a desconfiar do mundo à nossa volta, a quase esperar pela maldade que pode a qualquer momento ser lançada por quem nos rodeia. Construímos barreiras entre nós e os outros. Nós sempre cobertos de razões, os outros sempre agindo de má-fé. Obviamente que através destas lentes de separação, é impossível abrir espaço para o amor.

O que fazer para que as coisas deixem de ser dessa forma? Muita coisa pode certamente ser feita, existindo o desejo sincero de contribuir para uma sociedade mais fraterna. Poderei no entanto, sugerir desde já três linhas de ação:

  • Ser simpático para as pessoas ao seu redor
    Distribuir gentileza e atenção pelos outros é meio caminho andado para cultivar qualidades conducentes ao amor. Comece a demonstrar mais simpatia pelos outros e observe o que acontece. Sorria. É provável que os outros reajam da mesma forma e comecem também a ser mais gentis. Por outro lado, verifique como se sente sendo simpático e amável. Aposto que se sentirá bem melhor consigo próprio.
  • Aproxime-se das pessoas que não gostam de si
    Se aspira a ter algum sucesso, habitue-se à ideia de ter alguns inimigos declarados ou ocultos. Na verdade, seja em que circunstância for, é praticamente impossível agradar a toda a gente. Mais tarde ou mais cedo vai deparar-se com pessoas que não gostam de si. O reflexo mais natural será pagar-se da mesma moeda e começar a desprezar essas pessoas. Mas não estou aqui para lhe mostrar os caminhos mais fáceis. Para fazer a diferença no mundo, é preciso agir de formas mais construtivas.
    Já pensou no desafio implicado em conseguir apreciar essas pessoas? Isso mesmo, não se deixar envolver pelo ódio dos outros e persistir em ser simpático. Perdoar e conseguir demonstrar apreço por essas pessoas requere a magnanimidade de um espírito superior, não lhe parece? É possível que esteja neste momento a dizer que não é capaz de o fazer. O desafio está em tentar.
    Existe alguém nas redondezas que não goste de si? Então, nos próximos dias, tente aproximar-se dessa pessoa. Procure conhecer as suas qualidades e pontos positivos. Em que é que essa pessoa se diferencia? Demonstre apreço. Fale-lhe dessas qualidades e pontos positivos. Comente com os outros essas qualidades.
    Se essa pessoa persistir com hostilidade contra si, é importante que compreenda que o problema não é seu mas sim dessa pessoa. Mesmo que precise afastar-se de novo, a sua consciência estará tranquila e isso será muito mais libertador para si do que permitir-se alimentar ódios.
  • Coloque-se no lugar dos outros
    Existem várias formas de analisar o mundo e a maior parte das vezes cometemos o erro de aceitar somente as nossas próprias perspetivas. Todos temos diferentes personalidades e diferentes histórias de vida. Para compreendermos a forma de agir do nosso semelhante, precisamos colocar-nos por momentos na sua “pele”. É fácil criticar os outros, fazer julgamentos e anunciar que faríamos as coisas de uma forma diferente e melhor. Contudo, não estaremos a ser levianos procedendo assim? Antes de lançar a primeira pedra, tente perceber o que sucedeu para que determinada pessoa tenha agido de alguma forma considerada reprovável. Quais são os antecedentes? Qual o ambiente e passado dessa pessoa? Qual a sua história de vida?

Procure todas as formas de alimentar sentimentos como a compreensão, a tolerância, a bondade e a compaixão. Dessa forma estará a cultivar o amor e a contribuir para um mundo melhor.

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sábado, 5 de novembro de 2011

O bigode do tigre

Uma jovem mulher, Yun Ok, foi até ao célebre monge da montanha.

- Ó respeitável sábio - disse ela. - Estou em dificuldades! Faça-me uma poção.
- Tudo bem - disse o sábio. - Qual é sua história?
- É o meu marido. Nos últimos anos, ele esteve ausente, lutando numa guerra. Agora que voltou, quase não fala comigo. Se falo, ele parece não ouvir. Quando abre a boca para falar, é rude. Se lhe sirvo comida, ele não gosta; empurra o prato para o lado e sai da mesa, raivoso. Preciso de uma poção para que ele volte a ser amoroso e carinhoso!
O sábio respondeu:
- Tenho a receita. Mas o ingrediente essencial é o bigode de um tigre vivo.
- O bigode de um tigre vivo! - Disse a moça. - Como vou conseguir isso?
- Se a poção for realmente importante para você, então você terá êxito - respondeu o monge.

A moça foi para casa. Naquela noite, enquanto o marido dormia, saiu furtivamente com uma tigela de arroz e um naco de carne. Chegou a uma prudente distância da caverna de um tigre, estendeu a comida e o chamou para comer. O tigre não veio. Na noite seguinte, fez a mesma coisa, desta vez mais perto da caverna. De novo, nada aconteceu. Todas as noites ela ia à caverna, cada vez se aproximando mais. Pouco a pouco, o tigre acostumou-se com ela. Certa noite, chegou a uma distância da qual se poderia atirar uma pedra na caverna e parou. A moça e o tigre fitaram-se sob a luz da lua. Na noite seguinte, ela se aproximou ainda mais, a ponto de estar tão próxima que poderia falar com o tigre com uma voz muito suave. Pouco depois, o tigre comeu a comida oferecida.

Na outra noite, o tigre a esperava. Depois que ele comeu, ela passou a mão sobre sua cabeça, e ele começou a ronronar. Seis meses tinham passado desde a noite da primeira visita. Finalmente, depois de tê-lo acariciado na cabeça, ela disse: "Ó generoso Tigre, preciso de um dos seus bigodes. Por favor, não se zangue comigo!". E ela cortou um dos bigodes. O tigre não se zangou, e lambeu-a. Ela correu disparada, com o bigode nas mãos. Exultante, chegou à caverna do eremita: "Ó grande sábio, consegui o bigode do tigre! Agora você pode fazer a poção mágica!". O sábio examinou o bigode cuidadosamente, satisfeito, porque era mesmo de tigre, e jogou-o na fogueira.

- O que você fez? - Gritou a moça. - Depois de todo o esforço que eu fiz para conseguir o bigode!
- Conte-me como você o conseguiu - pediu o sábio.
- Todas as noites, eu ia à caverna do tigre com uma tigela de comida, para ganhar a sua confiança. Falava docemente com ele, para fazê-lo compreender que só queria o seu bem. Fui paciente. Cada noite, levava comida sabendo que ele não a comeria. Mas não desisti. Nunca falei asperamente, nem o censurei. Finalmente, numa noite, ele andou alguns passos em minha direção. Nas noites seguintes, ele já estava à minha espera e comia mesmo da tigela. Passei a mão na sua cabeça e ele começou a ronronar. Foi aí que consegui cortar o bigode dele.
- Você domesticou o tigre com a sua persistência e amor - disse o sábio.
- Mas você jogou o bigode do tigre no fogo! Foi tudo a troco de nada! - Lamentou-se ela.
- Não, não foi tudo a troco de nada. Você não precisa mais do bigode. Será que o seu marido é mais feroz que um tigre? Será que ele é menos sensível ao carinho e à compreensão? Se você foi capaz de ganhar a confiança de um animal selvagem e sedento de sangue, usando suavidade e paciência, certamente poderá fazer o mesmo com o seu marido!

Yun Ok permaneceu emudecida por alguns momentos. Então despediu-se, agradecendo, e foi-se embora, refletindo sobre a grande verdade que havia aprendido do sábio da montanha.

MORAL DA HISTÓRIA:
O segredo para lidar com pessoas difíceis é não morder a isca da negatividade delas e deixar que elas mordam a isca de um coração empático e cheio de amor.


Fonte: Susan Andrews, psicóloga e monja iogue. Texto publicado na coluna Sua Vida, da Revista Época.