sábado, 20 de agosto de 2011

Acerca do Prazer e da Dor

Recordo-me de, quando estava em Oxford, dizer a um dos meus amigos, enquanto caminhávamos nos estreitos passeios pejados de pássaros em redor de Magdalen, numa manhã do ano em que acabei o curso, que desejava provar o fruto de todas as árvores do jardim do mundo e que partia para o mundo com essa paixão na alma. E, de facto, assim parti e assim vivi. O meu único erro foi o de ter-me confinado exclusivamente às árvores daquele que me parecia ser o lado mais soalheiro do jardim e ter evitado o outro lado devido à sua sombra e à sua melancolia. Fracasso, desgraça, pobreza, mágoa, desespero, sofrimento, e mesmo lágrimas, as palavras entrecortadas que provêm dos lábios em tormento, o remorso que nos faz caminhar sobre espinhos, a consciência que condena, a auto-humilhação que castiga, a miséria que deita cinzas na sua cabeça, a angústia que elege o burel como indumentária e na sua própria bebida deita fel – tudo isto eram coisas que eu temia. E, embora tivesse decidido não as vir a conhecer, fui por meu turno, forçado a prová-las uma a uma, a alimentar-me delas e a não ter, durante um certo período, nenhum outro alimento.

Não lamento nem por um instante ter vivido para o prazer. Fi-lo plenamente, como se deve fazer tudo aquilo que fazemos. Não houve prazer que eu não tivesse experimentado. Lancei a pérola da minha alma para uma taça de vinho. Desci o caminho do prazer ao som das flautas. Vivi de mel. Mas ter continuado a mesma vida teria sido errado, porque teria sido limitativo. Tinha de seguir o meu caminho. A outra metada do jardim reservava-me também os seus segredos.

Oscar Wilde, in De Profundis


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