domingo, 26 de junho de 2011

Quando a mudança não depende unicamente de nós

Há coisas que não gostamos e que só dependem de nós para serem mudadas. Encontram-se dentro da nossa esfera de intervenção e, com maior ou menor esforço, podemos mudá-las. Infelizmente, nem tudo depende só de nós próprios e das nossas acções.


O Henrique atravessava uma crise e demorou algum tempo até conseguir identificar as causas do seu sentimento de vazio e insatisfação. Aparentemente tinha tudo para ser feliz. Na meia-idade, usufruía de uma situação financeira desafogada que lhe permitia fazer algumas extravagâncias. Os dois filhos estavam criados, ambos independentes e já longe do ninho familiar. Vivia com a mulher com quem mantinha um relacionamento harmonioso de quase trinta anos. Porque não era feliz então?

As respostas começaram a surgir ao fim de um período de introspecção. A verdade é que o Henrique era um homem do campo mas, por força das circunstâncias, sujeitara-se grande parte da vida a morar num espaço citadino. A mulher não gostava de viver no campo onde dizia sufocar de tédio. Porém, era no campo que ele se sentia livre e de bem com a vida. Quando se permitiu visualizar uma mudança que o faria feliz, os olhos encheram-se de lágrimas ao imaginar que estava a mudar-se para uma casa perto de olivais e pomares. Seria um sonho poder gerir ali um negócio, imaginava-se mesmo a contratar pessoas e a efectuar contactos. Contudo, de repente estacou, angustiado, quando lhe ocorreu que a família não iria aprovar.

Nem sempre é possível tomar a resolução de proceder a mudanças, principalmente quando existem outras pessoas implicadas no processo. Uma decisão familiar ou colectiva não é tão simples como uma decisão individual. O Henrique não tinha o direito de arrastar a família para o campo. Mas a verdade é que a família também não tinha o direito de prender o Henrique na cidade a partir do momento que ele tinha tomado consciência que não era feliz ali.

E então, o que fazer num caso destes? Em primeiro lugar, é preciso aceitar plenamente a situação presente. Tomar consciência que o que vivemos, é de alguma forma, resultado dos nossos pensamentos e acções tomados ao longo do tempo. O nosso passado conduziu-nos a este cenário, talvez até nos tenha sido útil numa fase ou noutra. Só que agora queremos tomar uma outra direcção e ponto final. Então é preciso aceitar a situação presente e libertar-se de insatisfações e rancores em relação a nós e aos outros. Perdoar-se a si mesmo e a quem possa estar implicado. No caso do Henrique, este culpava-se a ele próprio por nunca ter dado ouvidos ao seu interior. Estava também um pouco ressentido com a mulher por esta nunca ter estado atenta às suas necessidades.

Após este passo, que permite dissolver pensamento e sentimentos negativos, é altura de se passar à fase seguinte. Depois de se alcançar uma perspectiva neutral acerca da situação que se vive, é altura de uma focalização atenta nas soluções e não no problema em si. Sugiro que coloque a si próprio as seguintes questões:

  • É mesmo importante uma mudança? Imagine-se dentro de cinco ou dez anos se as coisas continuarem da mesma forma que têm vindo a ser. Tome notas acerca de tudo o que sentiu ao imaginar este cenário. Deixe passar algum tempo e imagine-se dentro de cinco ou dez anos se efectuar a mudança que sente ser necessária. Do mesmo modo, anote tudo o que sentiu.
  • O que ganho se efectuar esta mudança? E o que perco?
  • Que soluções posso encontrar para que proceda à mudança que pretendo, com o mínimo de perdas?

No caso do Henrique, após um período de alguns avanços e recuos, a família chegou a consenso. À primeira vista, uma separação parecia ser a única saída possível. É verdade e é preciso dizê-lo que, muitas vezes, a solução passa inevitavelmente por um divórcio. Mas, neste caso em concreto, porquê uma separação, se o casamento era perfeitamente funcional? Aqui, o que era necessário era negociar cedências, de modo a alcançar uma solução amigável para todos.

Após um diálogo sincero, em que o Henrique expôs frontalmente as suas insatisfações e os seus sonhos, foi a própria esposa que avançou com uma ideia que depois de amadurecida levou à solução final. Mudaram para uma cidade mais pequena, para uma moradia situada a cerca de meia hora de um espaço de olival que correspondia ao idealizado pelo Henrique. A esposa cedeu a mudar-se da cidade em que sempre vivera mas sem prescindir do meio urbano em que se sentia confortável. O Henrique cedeu a não ficar a habitar no espaço rural mas ganhando uma proximidade efectiva ao olival que lhe permitia ir e vir consoante as necessidades. Os filhos não colocaram objecções, apoiaram com carinho a resolução dos progenitores e continuaram a visitá-los ainda com mais regularidade do que faziam anteriormente. Quem sabe algum deles não se virá também a interessar pelos novos negócios do pai? Uma coisa é certa, a crise de Henrique levou ao fortalecimento dos laços familiares quando antes parecia haver o risco de os dissolver.

Lembre-se que nada é impossível, desde que nos coloquemos as perguntas certas e nos disponhamos a efectuar as mudanças necessárias. É necessário saber com clareza o que queremos e precisamos. É necessário comunicar o que sentimos a quem faz parte da nossa vida. É necessário procurar e mesmo negociar soluções em conjunto para satisfazer as necessidades de todos os intervenientes. Por vezes são necessárias roturas temporárias ou definitivas para que todos possam viver consoante os seus valores e apelos. Sacrificar-se pelos outros não é solução. Ninguém deve colocar a felicidade de outro acima da sua própria felicidade. O inverso é igualmente verdadeiro. Temos o direito e o dever de ser tão felizes quanto possamos ser. Permita-se ser feliz e fazer felizes os outros à sua volta!


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