sábado, 21 de maio de 2011

A Cidade Abençoada

Quando eu era jovem, disseram-me que numa certa cidade, vivia uma pessoa de acordo com as Escrituras. De imediato, disse para mim mesmo: “Irei procurar essa cidade e essa bem-aventurança.” Distando muitas jornadas de viagem, reuni bastas provisões para a minha viagem. Passados quarenta dias avistei a cidade; entrei nela ao quadragésimo primeiro dia.


E que espanto! Todos os habitantes tinham apenas um olho e uma mão. Intrigado, disse para mim mesmo: “Será que os habitantes desta cidade sagrada possuem apenas um olho e uma mão?”.

De repente, reparei que também eles estavam espantados, ficando maravilhados pelo facto de eu possuir duas mãos e dois olhos. E enquanto discutiam caoticamente, dirigi-lhes a palavra. “É esta a Cidade Abençoada, onde cada homem vive de acordo com as Escrituras?” Ao que eles responderam: “Sim, é esta a cidade.”

“E que maldição”, perguntei eu, “vos afligiu, para apenas possuírem o olho e a mão do lado direito?”.

Ao dizer isto, todos ficaram comovidos: “Vem e vê.”

Levaram-me até ao templo, localizado no centro da cidade. Aí chegado, vi uma pilha de olhos e de mãos completamente mirrados. Perante cenário tão atroz, disse: “Que infelicidade! Que conquistador cometeu tal crueldade?”.

E houve um murmúrio entre eles. Um dos mais velhos avançou e disse: “Isto é obra nossa; Deus tornou-nos conquistadores sobre o mal que estava dentro de nós.”

Levou-me até um elevado altar, sendo seguido por todos os outros. No topo do altar encontrava-se uma inscrição que ele me convidou a ler:

“Se o teu olho direito te escandalizar, retira-o de ti; pois é-te benéfico que um dos teus membros pereça, evitando que todo o teu corpo seja consumido nas chamas do Inferno.” Foi então que compreendi. Virei-me para todos os presentes e gritei. “Nenhum homem ou mulher de entre vós tem dois olhos e duas mãos?”.

Eles responderam dizendo: “Não, nenhum. Não existe ninguém, excepto aqueles que são demasiado jovens para ler as Escrituras e compreender o seu mandamento.”

Assim que saímos do templo, abandonei imediatamente aquela Cidade Abençoada; eu não era demasiado jovem e sabia ler as Escrituras.

Gibran, Kahlil. In O Louco

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