sábado, 9 de abril de 2011

O acordar de um sonho

… Certo dia, por muito ocupados que possamos estar com coisas pessoais inconsequentes, algo acontece, algo catastrófico, e o nosso pequeno mundo fica estilhaçado ou tão rachado, tão amolgado, que nunca poderemos voltar realmente a sentir-nos bem, vivendo nele. É como se, até aí, nunca tivéssemos nascido, como um pinto no seu ovo. Mas subitamente o nosso pequeno mundo parte-se e abre, e damos por nós a espreitar por uma fenda para um outro mundo mais vasto. A realidade começou finalmente a irromper. Começamos a ver as coisas como elas realmente são. Sentimo-nos como se tivéssemos crescido, já não nos sentindo arrebatados pelos brinquedos e contos da infância. Ou então é como se tivéssemos acordado de um sonho. Quando imersos nos nossos sonhos, o que quer que aconteça parece tão real, tão vivido, como a nossa experiência acordada. Mas quando acordamos, breve se extingue o mundo dos sonhos. Passados poucos minutos, ou talvez algumas horas, já nada é, geralmente, nem sequer uma memória. Da mesma maneira, quando a realidade irrompe na nossa existência adormentada e cómoda, olhamos para trás para a nossa antiga vida, para todas as velhas actividades em relação às quais perdemos todo o apetite que em tempos sentimos, e dizemos: “Como posso eu ter vivido assim? Seria aquele realmente eu? Seria eu realmente tão louco, tão iludido?»


Em resultado deste tipo de experiência, o nosso comportamento muda, tal como um adulto se comporta de maneira diferente com uma criança. E as pessoas notarão talvez que não somos os mesmos de antes, que mudámos. Poderão interrogar-se se não haverá qualquer coisa de errado connosco. “Passa-se alguma coisa contigo?”, perguntarão e não de modo desagradável. Se bem que, em privado, possam pensar que não estamos bem do juízo, porque já não nos interessamos pelo mesmo tipo de coisa que costumávamos, deixámos de fazer as coisas que as outras pessoas gostam de fazer.

O acontecimento que nos estilhaça o mundo privado é muitas vezes desagradável. Pode ser um falecimento, ou a perda de um emprego, ou o abandono de quem se ama, ou a descoberta da infidelidade do cônjuge. Por outro lado, a irrupção pode verificar-se de modo mais agradável. Subitamente, temos uma percepção nova através da arte, ou talvez da música, da poesia. E pode ainda ocorrer através de uma experiência que nem é agradável nem desagradável, nem sequer súbita. Acontece apenas sentirmo-nos descontentes e insatisfeitos. Mas o que quer que seja que sirva de fio condutor, a experiência que se lhe segue tende a ser dolorosa, perturbadora e desgastante, porque os velhos padrões são alterados, os antigos moldes quebrados.



Sangharakshita, in Quem é o Buda

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