sábado, 7 de agosto de 2010

Da Amizade

«...O vosso amigo são os vossos desejos cumpridos.

É o vosso campo que semeais com amor e colheis com gratidão.

É a vossa mesa servida e o vosso átrio.

Pois vos apresentais a ele com a vossa fome e nele procurais a paz.

Quando o vosso amigo vos diz o que pensa, não receeis o “não” do vosso espírito, nem retenhais o “sim”.

E quando estiver silencioso, não deixe o vosso coração de escutar o seu coração;

Pois, na amizade, todas as ideias, todos os desejos, todas as esperanças nasceram e foram partilhadas sem palavras e com uma alegria inexprimível.

Quando vos separardes do vosso amigo, não vos entristeçais;

Porque aquilo que de melhor amais nele pode tornar-se mais claro na sua ausência, como, vista da planície, a montanha é mais nítida para quem a escala.

E que não haja outro fim na amizade que não seja o aprofundar da alma.

Pois o amor que não procura revelar o seu próprio mistério não é amor, mas uma rede lançada que apenas consegue prender o supérfluo.


E que o melhor que haja em vós seja para o vosso amigo.

E se ele tiver de conhecer o refluxo da vossa maré, que conheça também o seu fluxo.

Pois para que serve o amigo se o procurais apenas para matar o tempo?

Procurai-o sempre para as horas vivas.

Pois ele vem para resolver as vossas necessidades, mas não o vosso vazio.

E que na doçura da amizade residam a alegria e a partilha dos prazeres.

Pois no orvalho das coisas pequenas o coração encontra a sua manhã e se reanima...»


Gibran, Khalil. In O Profeta

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