segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O Meu Amigo


«...Meu amigo, eu não sou o que pareço. A aparência é apenas a túnica que trago vestida, uma vestimenta tecida com mil cuidados por mãos femininas e que me protege dos teus interrogatórios, protegendo-te a ti da minha negligência.

O “Ego” que me habita, meu amigo, reside na casa do silêncio, e aí permanecerá para sempre, inobservado e inacessível.

Não quero que acredites no que te digo nem que confies no que faço, pois as minhas palavras não passam dos teus próprios pensamentos convertidos em som e as minhas acções mais não são do que as tuas esperanças convertidas em acção.

Quando me dizes: «O vento sopra de este», eu respondo-te: «Sim, o vento sopra de este»; porque não quero que te apercebas que a minha mente não se preocupa com o vento mas sim com o mar.Tu não conseguirás entender os meus mais secretos pensamentos, nem eu quero que os entendas. Quero estar sozinho com o mar.

Quando para ti é de dia, meu amigo, para mim é de noite; no entanto, mesmo nessa situação, falo do meio-dia que dança nos montes e das sombras púrpuras que percorrem os caminhos e os vales; pois tu não consegues ouvir as músicas da minha escuridão, nem ver o movimento das minhas asas em luta contra as estrelas; coisas que, de bom grado, eu próprio não te deixo ver ou ouvir. Quero estar sozinho com a noite.

Quando tu ascenderes ao teu Céu, eu descerei ao meu Inferno. Mesmo então, tu lançar-me-às um apelo através do golfo sem ponte: «Meu companheiro, meu camarada»; pois não quero que vejas o meu Inferno. A chama queimar-te-ia a vista e o fumo encher-te-ia as narinas. E eu amo demasiado o meu Inferno para te deixar visitá-lo. Quero estar sozinho no Inferno.

Tu amas a Verdade e a Beleza e a Rectidão; e eu, para teu bem, digo-te que é bom e correcto que ames essas coisas. Mas, no meu coração, rio-me do teu amor. Contudo, não quero que pressintas esse meu riso. Quero rir-me sozinho.

Meu amigo, tu és bom e cauteloso e sábio; não, tu és perfeito; por isso, falo contigo sábia e cautelosamente. E, no entanto, eu sou louco. Mas eu mascaro a minha loucura. Quero ser louco sozinho.

Meu amigo, tu não és meu amigo, mas como poderás tu compreender isso? O meu caminho não é o teu caminho e, contudo, de mãos dadas caminhamos juntos...»

Gibran, Kahlil. In O Louco

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