segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Deus


Em tempos antigos, quando a primeira sílaba me saiu dos lábios, ascendi à montanha sagrada e falei com Deus:

«Senhor, sou teu escravo. A tua vontade oculta é a minha lei e obedecer-te-ei para sempre.»

Mas Deus não respondeu e, assim como uma poderosa tempestade, afastou-se.

Mil anos passados, ascendi à montanha sagrada e novamente falei com Deus:

«Criador, eu sou a tua criação. Do barro me fizeste e a ti devo tudo o que sou.»

E Deus não respondeu; como se fosse um vento de mil asas afastou-se.

Mil anos passados, subi mais uma vez à montanha sagrada e novamente falei com Deus:

«Meu Deus, meu objectivo e minha satisfação; eu sou o teu ontem e tu és o meu amanhã. Sou a tua raiz na terra e tu a minha flor no céu e juntos crescemos perante a face do sol.»

Foi então que Deus se inclinou sobre mim, sussurrando palavras de delicadeza aos meus ouvidos. E tal como o mar envolve o regato que a ele aflui, assim Deus me envolveu.

E quando desci aos vales e às planícies, também ele estava comigo.

Kahlil Gibran, in “o Louco”

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